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A memória do Verão Quente de há 50 anos leva-nos numa viagem até outro país que felizmente se extinguiu

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Há 50 anos, milhares de pessoas instigadas por um discurso do bispo de Braga caminharam até à sede do PCP, no Campo da Vinha, no centro da cidade. O que se seguiu, acabou num assalto e na destruição das instalações do partido. Não houve mortos, como aconteceu em outros assaltos da mesma natureza. Mas o episódio de Braga é ainda assim um testemunho perfeito do Portugal em sobressalto do Verão Quente de 1975. Um país dividido, à beira de uma guerra civil, que só regressou a um caminho de normalidade muito depois da noite de 25 de Novembro desse ano.
O que aconteceu por esses dias parece, felizmente, o que é: uma memória distante, um incidente de percurso que acabou por desembocar na normalidade democrática que hoje conhecemos. Um conflito entre visões contrárias para o futuro do país novo, acabado de nascer em Abril de 1974 com o derrube do regime autoritário de Salazar e Marcelo Caetano. Entre os vários caminhos em aberto, discutia-se a legitimidade revolucionária defendida pelo PCP e pela extrema-esquerda e a legitimidade democrática dos partidos do centro, da direita, da Igreja ou da maioria dos portugueses. Nas eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975, o PS tinha conquistado 37,87% dos votos e o PPD 26,38% e o CDS (7,6%).
Entre a cúpula do poder político dominada pelo PCP de Vasco Gonçalves e a ala radical do MFA e o resto da sociedade tinha-se criado um conflito sem tréguas. O Norte conservador tornou-se o baluarte da resistência. Foi aí que o Exército de Libertação de Portugal (ELP), criado em Janeiro de 1975 pelo ex-subdirector-geral da PIDE-DGS, Agostinho Barbieri Cardoso, e o Movimento Democrático de Libertação de Portugal, liderado por Spínola, encontraram o seu suporte. Foi pela sua acção que a violência contra o PCP ou o MDP se instituiu. Enquanto o Grupo dos Nove, que reunia a ala moderada do MFA, manobrava politicamente para reequilibrar o poder comunista no Governo, na base a extrema-direita aliada à Igreja combatia através da violência e do terror.
O assalto ao PCP de Braga é um desses momentos de violência que ameaçou partir o país a meio e levá-lo à beira do precipício. Vernon Valters, avisava desde a embaixada dos Estados Unidos em Lisboa que “Portugal está à beira de uma guerra civil”. Os números da violência coligidos pelo PCP provam essa probabilidade: de Maio de 75 a Abril de 77, registou-se a deflagração de 310 bombas, 136 assaltos a sedes comunistas, 58 incêndios de instalações, 36 casos de espancamento de militantes comunistas, 16 atentados a tiro e dez episódios de apedrejamento.
Miguel Carvalho, um dos nossos melhores jornalistas de investigação, estudou a fundo essa onda de violência. E em 2017 escreveu um livro referencial sobre o período, com o título Quando Portugal Ardeu. Miguel Carvalho é o convidado deste episódio.
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